Técnicas da Gestalt-terapia aplicadas
à Ludoterapia
UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO
A Gestalt-terapia é
uma abordagem terapêutica cujos princípios básicos foram propostos
por Frederick S. Perls, psiquiatra alemão contemporâneo de Freud,
Reich, Goldstein e outros que, como não poderia ser diferente em
sua época, orienta-se inicialmente pela psicanálise.
Durante o nazismo
Perls segue para a África do Sul onde, como psiquiatra do exército,
começa a desenvolver suas idéias. De volta à Alemanha encontra-se
com Freud e decepciona-se por não encontrar espaço para as idéias
inovadoras que pretende introduzir à psicanálise. Posteriormente
Perls rompe abertamente com a Psicanálise e, anos depois, emigra
para os EUA, onde falece em 1970, não sem antes desenvolver um
trabalho de repercussão internacional.
O embasamento
inicial que fundamenta a Gestalt-terapia coincide com a própria
trajetória de seu fundador. Os antecedentes intelectuais segundo
James Fadiman e Robert Frager são:
As principais
correntes intelectuais que influenciaram diretamente Perls foram a
psicanálise (principalmente Freud e Reich), a psicologia da Gestalt
(Kohler, Wertheimer, Lewin, Goldstein e outros) e o existencialismo
e a fenomenologia. Perls também incorporou algumas das idéias de J.
L. Moreno, um psiquiatra que desenvolveu a noção da importância do
desempenho de papéis em psicoterapia. De um modo menos explícito,
Perls descreve a filosofia e a prática do Zen como uma importante
influência, particularmente em seus últimos trabalhos. (op. cit.,
p. 127.)
Entre os
pressupostos filosóficos que norteiam a Gestalt-terapia encontramos
primeiramente o humanismo, com a noção de que o ser humano tem duas
tendências básicas que lhe são inerentes, quais sejam, a tendência
a se preservar (autogerir-se e regular-se) e a tendência a crescer
na direção daquilo que define o homem como homem, sua
humanidade.
Algumas influências
substanciais do existencialismo e da fenomenologia podem ser
identificados: a noção de que o mundo do indivíduo só pode
ser
compreendido através da descrição direta que o próprio indivíduo
faz de sua situação única; a percepção de que o encontro
terapêutico é um encontro existencial entre duas pessoas, e não uma
relação nos moldes médico-paciente; a idéia existencialista de que
cada pessoa cria e constitui seu próprio mundo.
O sentido dos atos
psíquicos ou intenções deve ser entendido fenomenologicamente, ou
seja, através da descrição - todas as ações implicam em escolhas, e
todos os critérios de escolha são eles próprios selecionados dentre
possíveis disponíveis àquele indivíduo particular.
Conceitos da
Psicologia da Gestalt e sua adaptação ao set
terapêutico:
1. O todo e a parte: a melhor
tradução para a palavra Gestalt é todo, inteiro, configuração.
Quando nos deparamos com algo, a nossa percepção o capta como um
todo, e a seguir percebemos suas partes. Logo, o todo é anterior às
suas partes. É importante para a compreensão deste todo que se
descubra e se conheça a relação existente entre suas partes. Todas
as partes do campo desempenham algum papel na estruturação
perceptual. Assim, para o gestaltista é importante como o dado é
estruturado, considerando que as partes estão em íntima relação com
o todo. O indivíduo traz-se à terapia a partir de suas partes (uma
dor, uma queixa), mas é no todo que se pode encontrar o
significado. O olho do terapeuta trabalha então em duas direções:
no todo e na parte, à espera de que a relação revele a totalidade,
onde o discurso psicoterapêutico completa-se e
plenifica-se.
2. Figura e fundo: a
figura não é uma parte isolada do fundo, este existe naquela. O
fundo revela a figura, permitindo que a figura surja. Assim, na
relação terapêutica o psicólogo estará consciente de que o cliente
é um todo e deve estar atento a este todo mesmo quando o que está
sendo trazido é apenas uma parte; as duas partes, ele todo e a
parte dele, continuam presentes, por baixo ou por trás; o sujeito
se identifica com a parte que está sendo focalizada, ou seja, sua
parte pequena coincide com sua parte grande, seu todo. Assim, a
relação figurafundo é extremamente fluida, estando em constante
mudança. As figuras surgem do fundo para serem melhor elaboradas, e
a ele retornam fortalecendo a estrutura do fundo, emergindo como
nova figura. O que agora é fundo daqui a pouco poderá sobressair-se
como figura.
3. Aqui e agora: diz respeito à
preocupação com as influências sofridas pela percepção de um objeto
pela experiência passada ou projeções futuras. O aqui e agora, ou o
presente, é fruto de um passado contínuo a que o sujeito pertence e
de suas projeções e expectativas futuras. E é aqui e agora que
surge o dado, e é aqui e agora que deve ser vivido e compreendido.
Por ser a Gestalt-terapia uma proposta de trabalho que enfatiza a
vivência no set terapêutico como forma de levar o cliente à
conscientização, inúmeras propostas técnicas foram e continuam
sendo desenvolvidas, primeiramente por Perls em sua atuação com
grupos e posteriormente por seus seguidores. A criatividade do
terapeuta é bastante estimulada neste sentido. O método
fenomenológico é utilizado como instrumento de compreensão do
indivíduo na Gestalt-terapia. Existencialismo e
Gestalt-terapia convergem neste sentido, o que nos autoriza a
permear nosso trabalho com técnicas criadas e preconizadas por esta
abordagem de atuação da psicologia.
A PROPOSTA
FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL
O terapeuta
existencial, no encontro com seu cliente, estará sintonizado com os
princípios básicos de compreensão do homem descritos pela filosofia
existencial e pelo método fenomenológico. Assim, naquele momento
particular, estará percebendo seu cliente como ser único, com uma
forma própria de se colocar e se relacionar com o mundo, que são
reflexos de sua visão própria de mundo. Estará buscando compreender
aquele indivíduo considerando a forma especial como ele vivencia as
categorias-fenomenológicas: o tempo (passado vivido e futuro
enquanto projeto, convertidos no presente vivido aqui e agora), o
espaço (sua corporeidade, seus espaço próprio), o outro (sua
estranheza diante da diferenciação e da relação eu-outro, eu-mundo)
e a sua obra (sua ação no mundo, a forma própria escolhida por ele
para se colocar em seu mundo). Estará sintonizado buscando os
significados que aquele ser dá às categorias existenciais:
liberdade, responsabilidade, autenticidade, angústia, medo,
projeto, risco, morte, solidão, e buscará promover a ampliação da
consciência e a construção de sua verdade na ação.
O instrumento de
trabalho do terapeuta existencial é a linguagem. Neste encontro de
individualidades, encontro existencial, o terapeuta considerará não
só a linguagem formal, falada, mas também a linguagem expressa
através de gestos, expressões, tom de voz, movimentação
corporal.
No discurso buscará
aquilo de que trata o discurso: a temática do discurso, a forma e o
conteúdo do discurso - as estratégias desenvolvidas para o
discursar. Partirá do discurso para a compreensibilidade, e daí
para a disposição. A situação terapêutica é a articulação de dois
sentidos - um do cliente e outro do terapeuta em que se dá a
captação do sentido pelo entendimento. Através do exercício da
épochè - que é apreender o outro pelo sentido e
articulação trazidos por ele e não pelo terapeuta, com suspensão de
juízos e valores, o terapeuta prepara-se para focar o sentido do
outro1.
No curso de seu
trabalho o psicólogo facilitará a exteriorização e expressão livre
dos sentimentos, buscando promover a congruência entre pensamento,
sentimento e linguagem - ação no mundo.
LUDOTERAPIA
EXISTENCIAL
A criança vai aos
poucos aprendendo a desenvolver uma imagem de si. Primeiramente
forma o seu eu-corporal pela descoberta de seu corpo e da
diferenciação entre ela própria e o mundo. Posteriormente
desenvolve o eu-social, proveniente da relação (gratificante ou
não) estabelecida com este mundo. Aprende a se ver através do outro
e é "continuador passivo da história da família". Padrões
comportamentais são adquiridos, mas chega o momento em que se
defronta com a escolha básica: continuar a história ou
ultrapassá-la em busca de uma criação de si-própria.
Desde cedo a criança
demonstra atitudes genuínas que, mesmo que aos poucos sejam
moldadas pelo ambiente, a caracterizam individualmente como ser
vivente e íntegro. Os conflitos são, a princípio, basicamente
relativos às suas necessidades básicas e à luta pela autonomia,
confrontadas com o ambiente em que vive. Embora com esforço de vida
restrito, a liberdade de escolha amplia-se com o desenvolvimento, e
o espaço vai se abrindo em direção ao ser genuíno que ela pode
construir em conseqüência de sua atuação no mundo.
A psicoterapia com
crianças pretende oferecer um espaço de continência permissiva no
qual a criança experencie suas potencialidades, aclare seus
conflitos e vivencie uma relação estimuladora de saúde.
Ludo significa jogo.
Terapia, recurso para ajudar. Ex significa para fora e
istencial revelar, sobressair, emergir. Ludoterapia
existencial pode ser então definida como: recursos para ajudar a
criança a emergir e revelar-se em sua essência, através do
jogo.
O primeiro recurso
que o terapeuta tem é ele próprio, com sua disponibilidade e
intencionalidade para aquele encontro.
Estando disponível
para o cliente, o terapeuta o acompanha, e assim capta o mundo como
a criança o capta, ao mesmo tempo em que, como ser separado, como
Dasein, tem sua própria integração significativa da
vivência. Esta compreensão da vivência é oferecida à criança como
nova possibilidade em seu universo integrativo e em sua
autocompreensão. Ir-com a criança é deixá-la livre para ir. O
terapeuta acompanha, segue a direção sugerida pela criança com sua
intencionalidade como recurso de trabalho: seu olhar, sua escuta,
únicos para aquela criança.
O espaço físico e os
elementos que o compõem são outro recurso de que dispõe o
terapeuta. É difícil descrever o espaço ideal, mas o aconchego e a
presença de elementos pertencentes ao mundo da criança parecem
favorecer a identificação e a integração dela ao espaço. A
importância de cada elemento não se encontra em si só, mas na forma
como cada um será utilizado no processo.
ALTERNATIVAS
TÉCNICAS E LUDOTERAPIA EXISTENCIAL
As técnicas devem
ser compreendidas aqui como maneira ou jeito de fazer
algo, ou seja, recurso terapêutico utilizado para que se
atinja o objetivo terapêutico: facilitar a expressão do ser e
promover condições para sua conscientização e expansão. Parte
material ou conjunto de processos de uma arte, ou seja, a
serviço da sensibilidade do terapeuta. Qualquer conjunto de
técnicas será considerado meramente um meio conveniente,
instrumentos úteis aos propósitos da terapia, mas isentos de
"qualidades sacrossantas".
Violet Oaklander
afirma:
Existe um número
interminável de técnicas específicas para ajudar as crianças a
exprimir sentimentos por intermédio do desenho e da pintura.
Independente do que a criança e eu escolhemos fazer em qualquer
sessão, o meu propósito básico é o mesmo. Minha meta é ajudar a
criança a tomar consciência de si mesma e da sua existência em seu
mundo. Cada terapeuta encontrará o seu próprio estilo para
conseguir esse delicado equilíbrio entre dirigir e orientar a
sessão, de um lado, e acompanhar e seguir a direção da criança, de
outro.(Oaklander, 1980, p. 69)
Ao utilizar recursos
técnicos o terapeuta objetiva colocar-se e à criança num mesmo
momento histórico e num mesmo caminho de busca de sentido, reduzir
sua ansiedade dirigindo-a numa caminho familiar e seguro onde pode
expressar-se livremente, facilitar-lhe a expressão, ampliar sua
consciência e abri-la para novas possibilidades de
existir.
Através da vivência
e da representação desta a criança articula uma linguagem que
possibilita a busca do sentido. Estando junto com a criança em seu
percurso, o terapeuta vai buscando os significados quanto às
categorias existenciais, quais sejam: autenticidade, liberdade,
responsabilidade, angústia, medo, risco, ampliando a consciência e
promovendo a construção da verdade de a criança no curso de sua
ação no mundo. No aqui e agora da vivência terapêutica o terapeuta
experimenta a forma própria da criança estar-no-mundo,
compreendendo a sua maneira de vivenciar o espaço (seu corpo), o
tempo (sua história), o outro (sua estranheza) e a obra (o seu
fazer-se).
AS TÉCNICAS
E SUAS APLICAÇÕES
Muitas
técnicas que aqui serão descritas podem ser encontradas em
publicações especializadas em ludoterapia de base fenomenológica.
Outras
foram desenvolvidas no processo diário do trabalho com crianças e
em cursos e grupos de troca. A algumas descrições serão acrescidas
situações terapêuticas em que foram utilizadas2.
Desenho
As crianças estão em
geral habituadas a desenhar. O que o terapeuta fará é explorar a
criação da criança em busca do sentido ali expresso. Este trabalho
pode ser livre ou dirigido.
Desenho livre: a criança manifesta o
desejo de desenhar. O terapeuta acompanha o processo de criação,
observa e, junto à criança, explora o sentido particular expresso
pelo desenho. Ao fazer isto o terapeuta estará possibilitando a
conscientização da criança de sua intencionalidade, ou seja,
daquilo que a motiva a criar este desenho, a usar estas cores, a
posicionar as
figuras desta forma etc..
Desenho dirigido: o cliente cria e
desenha livremente, mas o tema é proposto ou sugerido pelo
terapeuta. O objetivo do terapeuta é explorar através do desenho
questões pertinentes àquele cliente. Assim, pode pedir, por
exemplo, que a criança desenhe sua família, seu mundo, seu quarto,
sua casa, sua rotina, dê cor aos seus sentimentos, desenhe seus
amigos como animais (adaptando o bestiário) etc.. O bestiário é uma
possibilidade bastante útil no sentido de conscientizar a criança
de seus sentimentos sobre as pessoas que a cercam.
Pode-se pedir a uma criança que desenhe sua vida, assim poder-se-á
conhecer seus sentimentos à respeito dela. Pode-se sugerir à
criança que desenhe seus amigos como animais. Pr. é uma menina que
tem dificuldades
em estabelecer relações de amizade. Seus sentimentos sobre si mesma
são difusos, mais ainda a respeito dos outros que a cercam. Através
desta adaptação do bestiário foi-lhe possível reconhecer que tinha
opiniões formadas sobre todos de sua turma, expressar suas
preferências e abrir mão de isolar-
se ou tentar agradar a todos, estabelecendo relações com as pessoas
pelas quais sentia-se mais atraída ou identificava-se.
Vivências de
fantasias
Se a criança
expressa-se livremente na terapia em palavras ou em jogos ou
brincadeiras o terapeuta acompanha seu fluxo. No entanto, se lhe é
difícil expressar-se e muitos de seus sentimentos não vêm
espontaneamente à superfície, a fantasia pode ser um recurso
valioso de explorar estes sentimentos. Através dela é possível
relaxar a criança e deixá-la livre para encontrar espaços ainda não
explorados.
O primeiro passo em
qualquer vivência de fantasia é promover o relaxamento. Este pode
ser dirigido pelo terapeuta. Um modelo de relaxamento que tem sido
bastante útil é dirigir a criança num passeio por seu corpo.
Pede-se que tire os sapatos, deite-se confortavelmente e feche os
olhos. Muitas crianças não gostam de tirar seus sapatos, outras de
deitar e muitas outras de manter seus olhos fechados. Seus limites
são sempre respeitados depois de uma rápida conversa que esclareça
em que se constitui esta limitação. É importante lembrar que
qualquer proposta trazida pelo terapeuta deve colocar-se sempre
aberta para a recusa da criança. A reação da criança deve ser
utilizada para compreender a forma como ela atua e promover a
conscientização sobre sua forma de estar-no-mundo.
Retomando o
relaxamento, é pedido à criança que se deite confortavelmente e
mantenha os olhos fechados. O terapeuta, em voz pausada e suave,
vai dirigindo-a a seu espaço próprio, conscientizando-a de que
existe um espaço somente ocupado por cada um de nós, que ninguém
pode entrar a menos que seja convidado, fisicamente ou por
pensamentos. Neste espaço somente ele
detém o comando. Pede-se à criança que observe sua respiração,
tente apreender seu ritmo respiratório. O terapeuta pode respirar
no ritmo da criança
proporcionando maior sintonia entre os dois. É pedido à criança que
não interfira no ritmo respiratório, apenas observe, e em seguida
ela é dirigida num passeio por seu corpo, que pode começar pelo
dedão e sola do pé e seguir até o alto da cabeça. No final deste
trabalho a criança deverá estar suficientemente
relaxada e o terapeuta pode então levá-la para a "viagem de
fantasia". É dito à
criança que vai-lhe ser contada uma história, que ela vai "viver"
esta história, e que, quando acabar o trabalho, vai-lheser pedido
que desenhe ou relate o que encontrou no final. O terapeuta
pretende conhecer o mundo da criança relatado à partir do trabalho,
explorando suas motivações e significados.
Fantasia da roseira
Consiste em pedir-se à criança que imagine que é uma roseira.
Muitas sugestões são então dadas a título de estimulação
objetivando facilitar a associação e criação da criança. Pede-se à
criança que imagine que tipo de roseira é, se é mesmo uma roseira
ou é outro tipo de flor, se tem espinho, se
é grande ou pequena, alta ou baixa, magra ou gorda, se tem raízes
ou não, se estas são mais ou menos profundas, se tem folhas, como
são estas folhas,
são muitas ou poucas, como são seu tronco e seus galhos, em que
lugar está, se está só ou acompanhada, como são seus companheiros,
como se sente
neste lugar, o que vê em volta de si, árvores, flores, animais,
pessoas, onde é este lugar, quem cuida dela? A criança é então
dirigida de volta de seu espaço próprio para nosso lugar comum e
é-lhe pedido que desenhe a roseira que imaginou sem preocupar-se
com a qualidade do desenho, pois poderá dar as explicações que
quiser sobre o que desenhou.
Pr., de 10 anos,
desenhou uma roseira num vaso com três flores diferentes e uma
gaiola com um pássaro. Foi-lhe pedido que se apresentasse como se
fosse essa roseira e seu relato foi o seguinte: "Eu sou uma
roseira. Uma roseira com muitas rosas. Eu sou muito feliz. Eu estou
numa casa onde há muita gente que gosta de mim. O lugar onde estou
é muito bom. Espero que eu não murche tão cedo porque não quero
deixar o passarinho sozinho, coitado." Trabalhando
sobre o conteúdo trazido pela criança foi possível conhecer sua
preocupação em não morrer para que sua mãe não ficasse sozinha. E,
a partir disto, surgem
situações em que Pr. deixa de ter vida própria para fazer companhia
à mãe, que tem medo de ficar só. A irmã mais nova pode sair nos
finais de semana, ela não, para acompanhar a mãe. O terapeuta
explora o que a faz ficar neste lugar. A criança se conscientiza de
seu medo de magoar a mãe, de provocar-lhe "mais sofrimento", e
começa a explorar formas de proteger a mãe, preocupação sua, mas de
também defender seus próprios interesses.
Recursos
artísticos: tinta, massa, argila, cola, água
Muitas vezes o
terapeuta poderá trabalhar apenas o contato da criança com estes
materiais, o que pode lhe ser bastante prazeroso ou uma experiência
asquerosa. Parece verdadeiro que a criança menor lida mais
livremente com este tipo de material. Mas crianças maiores têm tido
bastante prazer no reencontro com a manipulação de argila e tinta,
com os quais tendem logo a construir algo. Assim, a utilização pode
ser livre ou dirigida: a criança pode criar livremente e o
terapeuta buscará articular com ela o sentido do que está
vivenciando, ou o terapeuta pode sugerir-lhe que expresse algum
sentimento através da argila, ou utilizando tinta da cor de sua
preferência.
Por ocasião do
aniversário das crianças o terapeuta pode sugerir-lhes que
construam um presente para si mesmas. Argila e tinta resultam num
presente concreto bastante interessante. Fazer um presente para
você mesmo não parece ser coisa fácil, mas esta atividade tem sido
realizada com bastante prazer pelas crianças, que levam com
bastante cuidado seus presentes para casa. Uma criança fez um
porta-lápis que levou com muito cuidado para casa. Passado um tempo
a irmã o quebrou acidentalmente. A criança, muito sentida, pediu
para fazer outro. Este objeto já tinha um lugar especial em seu
quarto que não gostaria que ficasse vazio.
Enquanto a criança
utiliza este material é possível ao terapeuta atento perceber a
forma como ela utiliza o espaço, o material e como está sua
motricidade fina e ampla.
Histórias e
poesias
Eis algo que a
criança em idade escolar se vê obrigada a fazer diariamente. É
certo que muitos têm prazer nisto. A utilização na terapia pretende
a exteriorização de sentimentos e idéias em palavras. Isto não é
uma tarefa fácil para todas as crianças, mas é um caminho bonito de
ser trilhado.
Pode-se propor uma
história interativa, construída em dupla pelo terapeuta e o
cliente. Alguém começa, o outro completa, depois o outro traz uma
nova frase, depois o outro, assim até que considerem a história
encerrada. Pode começar assim: "Era um dia especial...".
A poesia é também
interessante e pode ser trabalhada de forma interativa. Pode-se
pedir à criança que escreva uma poesia comunicando à sua mãe seus
sentimentos. A poesia dispensa muitas informações e pode ser mais
direta que uma prosa, o que torna o exercício bastante
emocionante.
A criança pode
fazer uma redação com um tema proposto pelo adulto. Outras vezes
ela própria escolhe sobre o que escrever. Uma criança escreveu uma
vez:
"Minha autoconfiança
Minha autoconfiança é uma das minha melhores qualidades. Mas,
se eu não estou autoconfiante, eu estou inseguro. Por causa disso,
ainda não estou totalmente firme emocionalmente. De outro lado, a
autoconfiança foi a principal responsável para eu me desenvolver
emocionalmente e amadurecer.
Eu sempre achei que se eu não tivesse confiança em mim mesmo,
não iria a lugar algum. Eu passei cada vez mais a acreditar em mim,
e então fui chamando todas as responsabilidades a mim, e fui
tomando conta de toda elas, mas sempre acreditando em
mim.
Quando estou autoconfiante, me encho de vontade para realizar
com prazer as minhas tarefas. E cada vez elas parecem mais
fáceis.
Se não fosse minha autoconfiança, eu não chegaria aonde eu
cheguei."
Livros
Infantis
O terapeuta pode ter
em seu consultório vários livros infantis. Hoje em dia é possível
encontrar textos com ilustrações bastante sensíveis explorando
inúmeros temas pertencentes ao mundo das crianças. Quando uma
criança escolhe um destes livros abre-se um tema a ser explorado,
um universo afetivo
a ser compreendido.
Pr. e seu terapeuta
encontraram no livro Curiosidade Premiada a forma de
explorar sua dificuldade de compreender a forma como sua família se
organizava. Este livro foi utilizado na devolução de
psicodiagnóstico onde só estava presente a mãe. Pr. ocupou-se em
trazer o pai um outro dia para ler-lhe o livro. Era-lhe importante
falar de sua necessidade de ouvir explicações, de entender o que se
passava. Sua família tinha muitos segredos (situações resolvidas a
portas fechadas), muitos conflitos com tios e avós e o pai tendia a
deprimir-se passando manhãs inteiras trancado em seu quarto
recusando-se a ir trabalhar. Pr. respondia a isto sentindo-se muito
insegura e tendo muitas dores de barriga quando longe da
mãe.
O
corpo
Como já foi dito
acima quando falávamos de relaxamento, cada pessoa tem um espaço
próprio que é perceptível externamente pela visão de seu corpo. As
sensações, as emoções, os pensamentos, as imagens, os anseios e
tudo o mais que diga respeito a uma pessoa vive em seu corpo.
Experimentar o corpo, movimentá-lo, é tocar neste universo próprio
de cada um.
Na ludoterapia
pode-se fazer brincadeiras como "o macaco mandou" ou imitar animais
em seus movimentos ou sentimentos. Pode-se jogar bola, correr,
pular, ir a um trepa-trepa. Pode-se dirigir a criança num
relaxamento onde ela imagina-se com uma lanterna na mão passeando
por dentro de seu corpo. Pode-se-lhe pedir que pare quando sentir
um músculo mais tenso ou uma dor e que então descreva o que está
percebendo ou sentindo. Ela pode deitar-se sobre um papel e o
terapeuta desenhar seu contorno que será depois "vestido". Ela pode
também fazer um desenho livre de seu corpo sobre um grande papel. A
parede pode ser usada para registrar o crescimento dela. É sempre
uma surpresa constatar a mudança de tamanho. O espelho também pode
ser utilizado. A criança pode gostar ou não do que vê. Pode ser
simpática ou agressiva a si mesma através do espelho. O terapeuta
pode usar também o espelho para demonstrar a incongruência entre a
fala e a expressão.
Uma criança
descobriu que tinha uma postura "torta"- seu ombro pendia para a
esquerda desenhando-se a si mesma num papel. Ela não sabia, mas
tinha consciência disto. Primeiramente entrou em contato com seu
corpo, imaginou como o faria e em seguida o desenhou. Quando viu
seu desenho surpreendeu-se A terapeuta sugeriu que se olhasse no
espelho e a criança constatou, surpresa, que era assim
mesmo.
Uma outra deitou-se
sobre um grande papel pardo e a terapeuta desenhou seu contorno.
Várias sessões foram usadas num alegre trabalho de "vestir" seu
desenho. E ficou claro como ela estava satisfeita consigo mesma.
Ela teve o cuidado de reproduzir roupas que tinha no armário e ser
o mais possível fiel à realidade. Este desenho ela levou consigo
logo depois, quando finalizou seu processo terapêutico. A mãe e ela
pretendiam pendurar na parede de seu quarto.
Dramatização
A brincadeira da
criança pequena é sempre uma dramatização. Ela dramatiza seu mundo
- a escola, a casa, as relações. A criança maior pode não fazê-lo
espontaneamente, mas demonstra prazer nestas atividades.
A criança pode fazer um brincadeira dramática livre utilizando os
objetos da sala como a casinha de bonecas, objetos de casinha,
bonecas, fantoches, bonecos, armas, carros etc.. Nestas
brincadeiras, quando o terapeuta é convidado a contracenar, é
importante que ele atue segundo instruções da criança para que não
represente o personagem por seus próprios critérios, mas pelos
critérios da criança.
Geralmente a criança
que começa uma terapia não sabe o que é isto e falar de sentimentos
é algo alheio ao seu dia-a-dia. Dramatizar sentimentos tem sido uma
forma útil de familiarizá-la com o universo terapêutico. Ela pode
imitar animais com medo, com raiva, felizes, inseguros, agressivos,
ansiosos, agitados, calmos, doentes etc.. Pode-se construir com a
criança uma caixinha dos sentimentos. Criança e terapeuta juntos
nomeiam os sentimentos que conhecem que são então escritos num
papelzinho e guardados na caixa. Posteriormente pode-se sortear um
ao acaso e representá-lo para que o outro adivinhe do que se trata.
É uma forma de exercitar a criança a compreender os sentimentos dos
que a cercam e os seus próprios.
Testes
projetivos
TPO - Teste projetivo Ômega, CAT -Teste de apercepção
temática para crianças, Rorschach - Teste psicodiagnóstico de
Hermann Rorschach e outros
No psicodiagnóstico
este material é utilizado para recolher dados úteis na elaboração
da conclusão psicodiagnóstica. Na ludoterapia o terapeuta pode
utilizá-los como recurso para explorar com a criança os
significados externados. De forma que o material produzido é
discutido, pensado e questionado, e o que importa é o significado
emergente.
Jogos
Baralho, jogo da
velha, memória, loto, ludo, boliche, bolade-gude, belisca, risk,
espião e muitos outros que se pode comprar à vontade nas
prateleiras de jogos para crianças.
Têm a capacidade de
colocar a criança bastante à vontade inicialmente, por ser algo já
conhecido. No processo terapêutico pode-se trabalhar a forma como a
criança joga, conhecer sua forma de raciocinar, como lida com a
competição, quais suas maiores preocupações durante um jogo etc..
Outras vezes a criança é introduzida num jogo não conhecido
anteriormente e pode-se conhecer sua forma de lidar com estas
situações. Serão descritas abaixo duas situações vividas pela mesma
criança que podem ilustrar a utilidade destes jogos.
Numa situação de
orientação a terapeuta, desejosa de aproximar a mãe do universo da
filha, propôs-lhe um jogo de belisca, que é um jogo muito antigo
feito principalmente no interior do Brasil. A mãe, oriunda do
nordeste do país, redescobriu felicíssima o prazer desta atividade.
Posteriormente a terapeuta propôs este jogo para a criança, que
ficou surpresa de saber primeiro que a mãe o conhecia e depois,
mais ainda, que ela havia jogado ali, no mesmo espaço que ela
estava utilizando. Algumas pedras foram presenteadas às duas e um
novo espaço de comunicação inaugurou-se.
Em outras ocasiões a
terapeuta ensinou a criança a jogar baralho. Era uma criança com a
vida muito dura. A família pobre lutava com dificuldades e o prazer
parece ter sido deixado de lado. A criança foi instruída a
pesquisar novas formas de jogar baralho que depois eram ensinadas
para a terapeuta e jogavam juntas. Com o passar do tempo o baralho
assumiu uma posição nobre no processo. Toda vez que aquela criança
queria dividir com a terapeuta algo que lhe estava ocupando o
pensamento, intermediava a situação com um jogo de baralho.
Começava dizendo que hoje queria jogar. As duas passavam a sessão
jogando baralho, mas o jogo era o menos importante. Enquanto
jogavam a criança falava de si e do que a afligia.
Técnicas de
grupo
Os grupos podem ser
dirigidos, semidirigidos, autoplanejados ou sem liderança. Em
qualquer caso os recursos técnicos são bastante úteis.
Objetivos alcançados
pelo trabalho em grupo:
- Conscientização da
subjetividade.
- Percepção e conscientização do
outro.
- Vivência da alteridade.
- Exploração das categorias
fenomenológicas (como eu funciono) e existenciais (como me coloco
no mundo).
Outras técnicas que
podem ser utilizadas como recurso terapêutico no trabalho com
grupos:
A
experiência da laranja
O terapeuta leva
para o encontro em grupo laranjas e facas em número suficiente para
cada membro do grupo. Distribui as laranjas e facas e pede que cada
um observe bem sua laranja. Olhe-a, toque-a, cheire-a, enfim,
conheçam-na bem. Se quiserem podem morder para sentir o gosto da
casca (as laranjas foram lavadas previamente). Depois é lhes
sugerido começar a descascar a laranja. Vivam esta experiência
intensamente. Percebam o esforço de realizar esta tarefa, o que
lhes ocorre neste momento? (Para muitas crianças é a primeira vez
que realizam esta tarefa - descascar laranjas). O terapeuta segue
instruindo que agora explorem a pele branca de sua laranja. Podem
prová-la. Em seguida devem tirar esta pele. Novamente atentem para
como se sentem fazendo isto, se encontram dificuldades e que
dificuldade é esta. Quando está totalmente descascada devem
sentir-lhe o cheiro e separar os gomos. Gomos separados, que provem
um. Busquem, ao mesmo tempo em que sentem o gosto do caldo descendo
por sua garganta, ainda com a pele da laranja em sua boca,
identificar como se sente, em que pensa, do que se lembram. Quando
todos tiverem provado, são estimulados a trocar os gomos com seus
colegas. Cada um deve começar a provar o gomo dos outro. Atentem
para as diferenças e semelhanças, para os gomos que mais lhes
atraem e para aqueles que não lhes dá prazer em comer. Deixar que
este momento flua livre e alegremente entre os membros do grupo.
Quando estiverem saciados da atividade promover um papo em grupo
fazendo correlação entre laranjas e pessoas - se já haviam
percebido que também entre as pessoas há diferenças e semelhanças,
o que os atraem nas pessoas, o que os repulsam etc..
Fantasia
de ser um livro
As crianças são
convidadas a se deitar. Um relaxamento é orientado e depois é-lhes
pedido que acompanhem o que o terapeuta está dizendo preenchendo as
lacunas com sua imaginação.
Imagine que você é
um livro. Qual seria um bom título para você, que captasse algo do
que você é? Qual seu estilo e seu tom? Que tal sua capa e seu
prefácio - será que as pessoas sentir-se-ão atraídas a ler você e
como serão elas? Você mostrará o que anuncia? Quais de seus
capítulos foram mais difíceis de escrever? Que capítulos você
gostaria que fossem suprimidos? Depois que as pessoas terminarem de
lê-lo de ponta a ponta, que acha que pensarão? Deixar a criança
livre com sua criação. Depois de um tempo orientá-las de volta para
o espaço de todos.
As crianças falam do
livro que seriam e trocam impressões sobre si mesmas.
Um garoto de 12 anos
disse que seu livro seria E o vento levou e em seguida
falou de como ficou quieto deixando que as suas emoções fossem
levadas. Uma questão desta criança era que não reagia às
provocações externas, a ponto de a mãe preocupar-se sobre algum
comprometimento psicopatológico.
Uma garota de 11
anos falou de si: A menina quieta da sala de aula. Contou
que tinha só um capítulo, mas que talvez pudesse criar um novo,
diferente.
Outra, de 13 anos
apresentou-se como As duas fases. Contou que tinha dois
capítulos. Um quando é tímida e outro quando é extrovertida. A capa
não tem a ver com o conteúdo, contou, dando-se conta de sua
vivência partida.
Pode-se propor um
trabalho em que se pede à criança que atribua um objeto ou animal a
uma ou mais pessoas de sua família ou de seus amigos. Possibilita a
troca de impressão entre os membros. Com ele pode-se trabalhar a
conscientização da impressão que cada um causa, a forma como se
percebem e a forma como são percebidos.
O jogo de cabo de
guerra, onde uma parte do grupo fica na ponta de uma corda e a
outra parte do grupo na outra, puxando a corda no sentido oposto ao
do primeiro grupo, é útil para trabalhar situações-limite de risco
e o esforço conjunto, além de explorar como se sentem em situações
de competição.
As propostas
anteriormente descritas para trabalhos individuais podem ser
adaptadas também para o trabalho em grupo com igual
proveito.
As técnicas aqui
sugeridas são uma pequena amostra de propostas já desenvolvidas.
Muitas outras são criadas diariamente no trabalho terapêutico, uma
vez que qualquer intervenção pode ser considerada um recurso
facilitador do processo do cliente.
O importante é não
se perder de vista que o referencial do trabalho psicoterapêutico
deve estar focado no cliente e na relação estabelecida entre
terapeuta e cliente, no aqui-e-agora do set terapêutico. As
intervenções têm a função de facilitar a explicitação do sentido do
cliente, seja ele criança ou adulto.
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